quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Já lá vão 53 anos…


Fez no dia 4 de Agosto de 1967, que cheguei a Lourenço Marques, em rendição individual, no navio «Angola», para uma missão de soberania, que a maior parte da juventude dessa altura estava sujeita. Quando hoje, sobretudo no Distrito de Cabo Delgado, onde se vê tanta destruição, tanta gente morrendo às mãos de forças que não têm sensibilidade, às centenas, vendo-se aos milhares desalojados fugindo da guerra, sendo as crianças as maiores vítimas, bem como os velhos, em situações desumanas, dá para pensar aos que lá andaram e quando havia vítimas, porque também como nós estavam a defender a sua terra, tanto fomos criticados. Hoje, vendo-se todas estas atrocidades, diga-se que, afinal, o Exército Português não foi assim tão mau para os moçambicanos, neste caso particular, porque além de matar a fome às populações, estas tinham também à sua disposição médicos e enfermeiros, não faltando também o ensino. O que hoje se vê, certamente que os atingidos, até dirão: Quem nos dera ter por cá novamente os portugueses... Na zona de Montepuez, terra do caju, todas as palhotas isoladas foram agrupadas a comunidades já instaladas, o que lhes dava segurança, pois estas eram atacadas pelos seus próprios irmãos.

Como dizia, depois de Lourenço Marques, cheguei à minha Companhia, 1504, em Novembro, desse ano. Depois de passar por Mocimboa da Praia, onde desembarquei, seguindo por Sagal e Diaca, onde havia uma fábrica de transformação de algodão, cheguei a Mueda, depois de passar pela Curva da Morte, onde morreram muitos camaradas em emboscadas. Aqui aguardei por transporte até Muidumbe, depois de passar por Miteda e Nangololo, onde estava instalada a sede do Batalhão 1878. O Batalhão, sendo transferido para Montepuez, regressou, entretanto, à Metrópole em Fevereiro de 1968, sendo eu, depois, colocado em Tete, no Comando de Agrupamento 1990, terminando a comissão de soberania em 1969, na Beira, chegando à minha terra - Arganil, em 22 de Setembro de 1969.
Como se vê, a cozinha da Companhia 1504 e de quase todas as outras companhias, na selva de Cabo Delgado, era um espaço que a ASAI de hoje não permitiria. Até a água se ia buscar a um tanque, feito por nós, num riacho, colocado numa ravina, transportada em bidons, sob vigilância dos colegas. Refeitório não havia. Cada um de nós escolhia um lugar sob a copa de uma mangueira, para que em caso de ataque os prejuízos não fossem maiores.
De vez em quando os artistas de Lisboa iam até nós para nos darem um pouco de alegria. Foi o que aconteceu com o Raul Solnado, que até teve um cartaz em sua honra.
E para terminar, apenas dizer: Quando se fala tanto em heróis, também nós, que desde 1961 até 1974, defendemos aquilo que todos diziam ser nosso, podíamos ser considerados heróis, pelo menos pelas boas práticas, que lá desenvolvemos. Fomos e continuamos a ser esquecidos, sobretudo em regalias médias, as quais podiam amenizar um pouco a vida de cada um, particularmente aqueles que ainda hoje sofrem com o stress de guerra. Mas os Combatentes são fortes e entre todos nós nota-se que o companheirismo, a amizade e a solidariedade são três palavras que ainda hoje nos
move, reunindo-nos uns com os outros, sob a bandeira de cada uma das unidades que representaram e lutaram, mas tendo sempre, acima da sua cabeça, a Bandeira Nacional. Ainda hoje, para a maioria, quando ouve a nossa Portuguesa em qualquer circunstância, os seus olhos lacrimejam, porque recordam-se que, quando era enterrado um camarada morto em combate, em sua memória era cantado por todos o Hino Nacional, a todo o vapor... ou por outra, com alma e coração. Aliás, ainda hoje acontece junto aos Monumentos que entretanto foram erigidos em diversos concelhos, em sua memória, particularmente em Arganil.

Se nos tempos de hoje se tem optado pelo confinamento, devido à pandemia, nós podemos dizer que estávamos também, porque os aquartelamentos eram cercados por arame farpado e só saímos quando para qualquer operação militar. Aqui, a incógnita era se regressávamos com vida. Até quando em vez, o aquartelamento ser atacado por metralhadoras e bazucadas vindas do exterior.

José Travassos Vasconcelos

terça-feira, 30 de junho de 2020

O Reitor Padre Pio Lucas visitou a nossa Associação


No passado dia 17 de Junho de 2020 (quarta-feira), o Reitor da Paróquia de Arganil, Padre Pio Lucas, deslocou-se à sede da Associação dos Combatentes do Concelho de Arganil, onde pôde apreciar profundamente o que aquela casa representa para a história arganilense, e que retrata a vida que cada combatente passou em terras africanas, na defesa das então nossas possessões portuguesas, tendo como pano de fundo um museu de grande riqueza militar, onde prima material quer do Exército e da Marinha, quer da Aviação, bem como diversos escritos alusivos a momentos diversos.
O Padre Lucas Pio não parou de tirar fotos, inclusivamente às rações de combate e ao celebérrimo Aerograma. Não deixou de utilizar também a guarita, espaço que era utilizado por um militar, à entrada do quartel, no sentido de, em termos de segurança, dar conta de quem entrava no mesmo.
No final, a visita não deixou de ser celebrada com um «rijo» branquinho, que deliciou as gargantas de cada um e se brindou pela saúde de todos, para continuarem vivos e dar vida àquele rico espaço.

Na despedida, o Padre Lucas não deixou de vincar a sua passagem pela Associação, com uma mensagem no Livro de Honra, onde se lê:
Arganil, 17/06/2020
Eu, como Reitor de Arganil, fico muito grato e muito feliz em conhecer este espaço tão bem cuidado e com tantas lembranças. Posso dizer que sou amigo desta casa.
Obrigado à direção da Associação de Combatentes do Concelho de Arganil.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Nos Santuários de Nossa Senhora das Preces e Nossa Senhora do Mont’Alto


Combatentes de OLIVEIRA DO HOSPITAL e ARGANIL não esqueceram o 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, é uma data muito querida aos Combatentes Portugueses, porque a história seja vista de uma forma ou de outra, sempre foi um dia que o Combatente foi recordado, sobretudo quando eram condecorados pelos seus feitos, quer os que fizeram parte da I Grande Guerra, quer depois os que pisaram os sertões africanos, na considerada Guerra do Ultramar. Anos mais tarde, com a implantação do Monumento ao Combatente, em Belém, onde se encontram espelhados todos os que perderam a vida em defesa das possessões ultramarinas, entre as décadas 60 e 74, passou a ser um local anual onde os Combatentes, de todo o país se reúnem, em franco convívio.
Porém, devido à pandemia que grassa pelo país e pelo mundo, este ano as comemorações foram canceladas, mas, mesmo assim, alguns grupos de Combatentes não deixaram de o fazer no seu concelho, na sua terra.
Santuário de Nossa Senhora das Preces
Assim, os Combatentes do Concelho de Oliveira do Hospital e outros que quiseram participar, desde há 27 anos que se reúnem em Lisboa. Mas como as circunstâncias obrigaram a mudar de rumo, não deixaram de o fazer, escolhendo o Santuário de Nossa Senhora das Preces para o fazer.
Depois de Abel Gouveia, o mentor destes convívios e o presidente da Junta de Freguesia de Aldeia das Dez, Carlos Castanheira, terem logo pela manhã, içado as bandeiras no monumento dedicado aos Combatentes daquela freguesia que tombaram em defesa da Pátria em terras ultramarinas, e colocado uma palma de flores, seguiu-se a concentração de todos no Santuário de Nossa Senhora das Preces; e perante uma boa refeição, onde cada um teve espaço para cumprir com as regras que estão impostas, mesmo assim o convívio não deixou de ser salutar, onde a união e a solidariedade se mantém entre todos.
Abel Gouveia, nas suas palavras sentidas, depois de desejar que todos se sentissem bem em tão aprazível local como é o Santuário de Nossa Senhora das Preces, e sentindo o calor humano de todos, desejou que «este convívio tenha o brilho e que não deve ter fim». Espera que no ano que vem todos estejam reunidos de novo em Belém, junto ao monumento «para mais um convívio fraterno e de amizade». E desejou que todos, ao regressarem, «que levem na ideia de que valeu a pena terem participado neste convívio».
De facto, no regresso, todos sentiram que embora fosse a primeira vez que tal celebrar o 10 de Junho «fora de portas», valeu a pena mais esta prova de amizade entre os Combatentes e seus familiares.
Já agora, num placard ali patente, com fotografias dos anos que os Combatentes de Oliveira do Hospital se deslocaram a Lisboa, dá conta também dos que, há 27 anos, se deslocaram a Lisboa, em 1996:
Os irmãos Lencastre de Campos - Eng. António, Dr. Francisco e Dr. Manuel - Dr. Raul Caçador, António Madeira Cruz Madeira, Abel Gouveia, Zé Manuel, José Viegas, Lopes (da Extensão de Saúde), José Manuel Silva, Manuel Cruz Álvaro, Vasco (Vendas de Galizes), António (Ponte), Paulo Jorge Torres Gouveia, José Fragoso, Gabriel Silva Álvaro e José Manuel Torres Lourenço.

Santuário de Nossa Senhora do Mont'Alto
Por seu turno, a Associação de Combatentes do Concelho de Arganil também não quis deixar passar em branco este dia. Para isso, alguns elementos dos corpos sociais e não só, conviveram na esplanada do Senhor da Ladeira - Santuário de Nossa Senhora do Mont'Alto - a santa que todos levaram no seu coração quando seguiam para a guerra e que muitos, ao regressarem, não deixaram de lhe agradecer a sua proteção, perante o seu manto protetor.
É sempre um convívio agradável, onde não falta a forte amizade, com recordações que marcam e marcarão para sempre a vida de cada um, a maior parte já com uma viagem longa, onde a idade vai pesando.

«Portugal esquece os seus Soldados»
Com este título, e aproveitando o momento, vimos há tempo publicado este texto, escrito por uma senhora numa das suas habituais crónicas num dos jornais deste país e que reza assim:
«Em Portugal recordamos pouco e temos uma dificuldade enorme em falar dos nossos Soldados mortos no Ultramar, ou que ainda hoje sofrem sequelas profundas daqueles combates. Quando não recordamos, não homenageamos aqueles que deram a vida pelo seu país, roubamos sentido à dor e traímo-las. Os Combatentes em África, por força de um volteface político, não tiveram direito a ser tratados como heróis. Fomos incapazes de distinguir a justeza da guerra (e há alguma que o seja?) com a generosidade de quem cumpriu o seu dever. E um país que não é capaz de recordar é, paradoxalmente, um país sem futuro».

quinta-feira, 26 de março de 2020

Canceladas as Comemorações do Dia 10 de Junho em Lisboa

Tendo em vista a preparação das homenagens para o Dia 10 de Junho, a Comissão Executiva para a Homenagem Nacional aos Combatentes 2020, iniciou os seus trabalhos para levar a efeito, no próximo dia 10 de Junho, junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém (Lisboa), o seu XXVII Encontro Nacional. Esses trabalhos tiveram lugar no passado dia 10 de Março, através de uma reunião da respectiva Comissão Executiva, em Oeiras, mais concretamente na Bataria da Laje, estando a Associação de Combatentes do Concelho de Arganil representada pelo seu presidente, António José Travassos de Vasconcelos e do vogal José Guerreiro.
Porém, perante a gravidade epidémica que o país e o mundo atravessam, com o COVID-19, e tendo em conta o cancelamento por parte do Presidentes da República das cerimónias oficiais do Dia de Portugal, a Comissão Promotora dos Encontros Nacionais de Combatentes, depois de ouvida a Comissão Executiva, decidiu cancelar as referidas cerimónias, com o sentido de, em 2021, elas sejam de novo organizadas e levadas a efeito, como desde há 27 anos.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Relacionado com COVID-19


A ASSOCIAÇÃO DE COMBATENTES DO CONCELHO DE ARGANIL, no contexto do surto do COVID-19 e na sugestão das orientações da Direcção Geral da Saúde (DGS), decidiu adiar a data da Assembleia Geral, marcada para o dia 22 de Março, assim como encerrar a abertura da Sede aos domingos.
Estas orientações aplicam-se até a Direcção achar por bem reabrir as suas instalações e em função da evolução epidemiológica.

Agradecemos a compreensão dos nossos Associados e amigos.
Com o conhecimento do Presidente da Assembleia Geral, Abel Ventura Fernandes.
O Presidente da Direcção da ACCA - António Vasconcelos.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Estatuto do Combatente

Despacho n.º 2880/2020

 Publicação: Diário da República n.º 45/2020, Série II de 2020-03-04
  •  Emissor:Finanças e Cultura - Gabinetes do Ministro de Estado e das Finanças e da Ministra da Cultura
  •  Tipo de Diploma:Despacho
  •  Parte:C - Governo e Administração direta e indireta do Estado
  •  Número:2880/2020
  •  Páginas:27 - 27
 Versão pdf: Descarregar 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Os Combatentes de Arganil em convívio especial

Enquanto não chegam boas notícias sobre o que o Governo vai implementar em relação aos Combatentes, das regalias tendentes a minorar o sofrimento de alguns, e outras normas que são de inteira justiça, sobretudo a nível de consultas médicas e medicamentosa, a Associação de Combatentes do Concelho de Arganil vai mantendo o convívio e alegria na sua sede, tendo como pano de fundo o não apagamento da solidariedade entre todos, obtida em locais e em momentos a que não estavam habituados nas suas origens terrenas. Além do mais, a maior parte a entrar e outros já entrados nos setenta avançados, aproveitam para que a solidão não seja total, porque ela acaba aqui, quando todos nos juntamos, para além de tal acontecer todos os domingos, da parte da tarde.

Foi o que aconteceu na passada quinta-feira, dia 20. Um amigo, ao lembrar-se de que tinha como meta o oferecimento de um leitão já assado e temperado à sua moda, dedicou essa oferta aos corpos sociais, que não se fizeram rogados em estarem presentes, pelo menos a maior parte.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Passagem de Ano foi mais uma forte aposta da Associação

Depois do grande magusto e sardinhada e da visita às campas dos nossos camaradas mortos em combate, no dia 1 de Novembro 2019, a festa da Passagem de Ano continua a marcar o que a Associação de Combatentes do Concelho de Arganil sabe fazer bem e com muita aderência não só de antigos combatentes e suas famílias, mas também de amigos que não deixam de participar nestas e noutras iniciativas.
Ultrapassou e muito as presenças, que em plena euforia para a entrada para o Ano de 2020, tanto mais tendo como transmissor de música para dançar em palco o Duo Energia, não faltou a sopa da madrugada, servida já quando os galos cantavam.

E os eventos continuam, sobretudo na sede, aos domingos, onde se reúnem muitos camaradas, que na companhia de outros e amigos, fazem sempre da tarde de domingo uma forma de começarem bem a semana.





















sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A luta pelo Estatuto do Combatente é patente


No dia 16 de Novembro, na sede da Associação de Combatentes do Ultramar Português, em Castelo de Paiva, realizou-se a assembleia geral da Federação Portuguesa das Associações de Combatentes, sob a presidência do Dr. Augusto Oliveira de Freitas, estando presentes o presidente da Associação Nacional dos Combatentes do Ultramar, com sede em Tondela, Dr. António Ferraz, para além da representação de outras Associações de Combatentes, entre as quais a Associação de Combatentes do Concelho de Arganil, representada pelo seu presidente da Direcção, António José Travassos de Vasconcelos e do vogal do Conselho Fiscal, José Vasconcelos.
Nesta reunião foram despoletadas importantes assuntos, no sentido de serem apresentados em próxima reunião aprazada com a nova Secretária de Estado dos Recursos Humanos e dos Antigos Combatentes, Dr.ª Catarina Sarmento e Castro, para a qual, entretanto, foi enviada uma carta na qual são citadas algumas propostas que não foram aceites na Assembleia da República e que acabaram por caducar.
Na carta enviada à Secretária de Estado, lê-se:
«Estamos no fim das nossas vidas e a média de idade dos combatentes é de 72 anos. A guerra terminou há 44 anos. Somos ainda mais de meio milhão de velhos que deixámos tudo na força da juventude para cumprir o que nos foi apontado como dever pátrio. Quase todos cumpriram pelo menos três anos e meio de serviço militar obrigatório e a enormíssima maioria deles, os soldados, com o soldo de miséria».
Por isso, como finaliza a carta, «Esperamos de V. Ex.ª um sinal inequívoco na concretização urgente de um Estatuto do Combatente, justo e adequado às possibilidades do país e às necessidades dos combatentes. Fomos e somos combatentes de Portugal».
Além desta pretensão, foram aprovados nesta reunião 9 pontos, que foram já enviados à Secretária de Estado, que são:
1 – Isenção de IRS para as prestações da Lei 3/2009.
2 – Actualização das prestações da mesma lei, aumentando a taxa do complemento da pensão, o valor desta, do acréscimo e o complemento.
3 – Cumulação destas prestações com outras;
4 – Entrada livre nos museus, monumentos e eventos culturais promovidos pelo Estado.
5 – Isenção do custo dos medicamentos para os Combatentes com pensões abaixo do valor do salário mínimo;
6 – Diminuição do custo para metade do passe social nas grandes metrópoles e redução do custo dos transportes públicos para 25%.
7 – Isenção das taxas moderadoras.
8 – Envolvimento do Ministério da Saúde no stress de guerra, não bastando os protocolos entre o Ministério da Defesa e as Associações. Privilegiar o tratamento na relação à unificação da incapacidade resultante.
9 – Estatuto de utilidade pública para as Associações de Combatentes.
Com tudo isto, espera-se que ao Combatente do Ultramar Português seja prestada justiça, quando a maior parte está no declinar da vida, alguns sofrendo ainda de traumas, do chamado stress de guerra, que absorveram nos sertões da Guiné, Angola e Moçambique, e que os transportarão para a outra vida, sem que houvesse ou haja ainda alguém que lhes valesse.


sábado, 30 de novembro de 2019

A historiadora Joana Pontes defende ser "devida uma homenagem” aos militares que prestaram serviço na Guerra Colonial

A historiadora Joana Pontes defende ser "devida uma homenagem” aos militares mobilizados, que prestaram serviço na Guerra Colonial (1961-1974), a propósito do seu novo livro, “Sinais de Vida", publicado no final de Novembro pela editora Tinta-da-China a partir da consulta de 44.000 cartas e/ou aerogramas trocados entre 1961 e 1974.


“Deve haver, da parte das pessoas de hoje, uma homenagem a esses militares, e perceber estas pessoas no seu contexto”, disse à agência Lusa Joana Pontes, depois da publicação do seu livro “Sinais de Vida", em que reflete sobre a correspondência trocada entre os milhares de militares destacados nos países então sob administração portuguesa, e os seus familiares e amigos, de 1961, quando a guerra eclodiu em Angola, e 1974, ano em que se deu a revolução que depôs a ditadura que sustentava o conflito.

“Há que perceber as pessoas neste contexto. E era obrigatório ir [para a guerra]. E a maioria foi em condições muito complicadas”, argumentou Joana Pontes.

“Além desse reconhecimento, em falta, há que dar a conhecer o que foi a circunstância da Guerra [Colonial] e a maneira como, de facto, as pessoas não percebiam muito bem o seu império”, disse a historiadora à Lusa.

“Sinais de Vida” resulta da tese de doutoramento em História de Joana Pontes, sobre a correspondência dos militares em contexto bélico, o que reconheceu “ser uma área de investigação muito pouco habitual em Portugal, mas que permite estar mais perto das pessoas comuns”.

A historiadora acrescentou que este tipo de universo de análise “é muito comum em França, Inglaterra, Espanha ou Áustria, sobre contextos como as duas guerras mundiais ou até a Guerra Civil espanhola (1936-1939)”.

“Foi gente que passou ali um muito, muito mau bocado"

Sobre as gerações que foram mobilizadas para a Guerra Colonial, Joana Pontes afirmou: “Foi gente que passou ali um muito, muito mau bocado, e lamento muito que não se preste a estas pessoas uma homenagem”.

“Lamento que não se preste a devida atenção e se reconheça que de facto eles foram servir a Pátria, e isso foi um ato de enorme generosidade; mas como a guerra foi considerada ilegítima depois do 25 de Abril de 1974, caiu-se tudo numa espécie de limbo, em que se prefere não falar nisso”, disse a historiadora, que considerou que “há agora uma oportunidade” de reparação.

“Eu acho que estes militares, os que foram mobilizados, sentem muito não serem reconhecidos, que não se reconheça o sacrifício. E, ao ler as cartas, acho se percebe o que foi a vida dessas pessoas, com 20 anos, separadas das famílias, durante pelo menos dois anos, lá longe, muito longe, num inferno”, argumentou, em declarações à Lusa.

Sobre a investigação, o ex-diretor do Arquivo Histórico Militar, Aniceto Afonso, escreve no prefácio que apresenta “um invulgar sentido de responsabilidade, num exaustivo e rigoroso planeamento”. Estimando tratar-se de um “contributo para a compreensão da Guerra Colonial que será indispensável conhecer e consultar”.

Joana Pontes, por seu lado, disse à Lusa que este seu trabalho “dá a consciência do que foi o Estado Novo: uma vida sem perspetiva, uma vida muito, muito difícil e dura, das condições em que viviam".

"Quando a agricultura não dava, era um ano mau, havia fome. Nos bairros periféricos no Porto, havia umas casas onde chovia e as mulheres ainda iam lavar os carregos, como diziam, de roupas no rio”, recorda a historiadora.

"Um imenso drama coletivo”

Aniceto Afonso, no prefácio, diz que a obsessão de um pequeno país querer manter, pela via da guerra, extensos territórios além-mar, “acabou por envolver o povo português num imenso drama coletivo”.

“É tudo muito triste porque são jovens, com 20 anos, eles e suas noivas”, sublinhou por seu lado a investigadora, acrescentando: “Às vezes digo isso aos meus alunos, imaginem-se com 20 anos, lá longe, sem ninguém, foi terrível”.

Nas transcrições de algumas das missivas, na obra, são notórios os erros de ortografia, o que corresponde a uma “muito fraca alfabetização”, que era comum a quem era recrutado e aos que ficavam. O que constituiu "uma dificuldade à investigação".

A autora consultou 44.000 cartas e/ou aerogramas, estimando-se a correspondência deste tipo, entre 1961 e 1974, em 21.000 toneladas.

Além da família e amigos, os militares correspondiam-se com as “madrinhas de guerra”, jovens que lhes escreviam como um meio de apoio moral e psicológico. Algumas, como é referido no livro, tornavam-se namoradas e futuras mulheres.

A investigadora atesta ainda que “não havia uma politização clara": "As pessoas não sabiam exatamente o que se estava a passar no contexto internacional, porque é que a descolonização teria de existir. Este tipo de considerações não estava presente na mente das pessoas”.

A investigação destas missivas, colocando na narrativa histórica não apenas as élites sociais, políticas, militares ou religiosas, mas também "as pessoas comuns e a sua vivência dos factos", permite "compreender a política num sentido mais lato”, ao mostrar “como estas pessoas estiveram a viver esta missão e em que condições”.

O ex-diretor do Arquivo Histórico Militar, que assina o prefácio, afirma, por seu turno, que “a intransigência do regime português e a sua opção pelo conflito militar como solução para a questão colonial teve consequências extensas e cada vez mais profundas na sociedade portuguesa”.

Segundo números avançados nesta investigação, o recrutamento de mancebos em Portugal rondou os 600.000, tendo 300.00 combatido em Angola, 135.00 na Guiné-Bissau e 150.000 em Moçambique.

As cartas são “uma forma de diário”. E se só alguns escreveram diários, contou a historiadora, “certo é que todos escreveram cartas”, dando conta do seu estado de espírito, e das condições em que combatiam.

Retirado de: (https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/os-militares-que-combateram-na-guerra-colonial-devem-ser-homenageados-a-historiadora-joana-pontes-foi-ler-mais-de-40-mil-cartas-da-epoca-e-nao-tem-duvidas-que-sim)

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Magusto do Combatente - 2019

Ontem domingo comemorou-se o São Martinho na Sede. 
Mais uma iniciativa da Associação de Combatentes do Concelho de Arganil, onde à volta de duas ou três mesas, e entre mulheres, se saborearam 30 quilos de boas castanhas, não faltando o bom tinto, água-pé e jeropiga. O caldo verde, com chouriço caseiro e um bom pingo de azeite novo, estava uma delícia.